Desencontros que reencontram

Eu fui ao encontro dela sem saber o que encontrar, ao menos pensava não saber, mas no fundo eu já tinha uma pequena ideia de que encontraria a mesma pessoa de onze anos atrás, mas com uma carga muito maior que da primeira vez. Assim que cheguei em frente ao portão da casa dela, toquei a campainha e o cachorro dela latiu em seguida. Por um momento, pensei que ela não tivesse ouvido, ou quem sabe desistido de me encontrar, eu a entenderia, porque eu também tinha cogitado isso, e quando já pensava em virar as costas e ir embora, ouvi uma voz que eu não ouvia há onze anos, e que estava incrivelmente igual, mas com alguns toques de experiência. Naquele momento, eu senti meu coração bater mais forte, e fiquei pregado no chão até ela chegar, caminhando devagar e disfarçando um leve sorriso ao olhar para o chão. "Oi" eu falei, tímido. E ela retribuiu, um pouco mais desinibida do que eu, e aquilo me pegou de surpresa, era uma parte dela que eu não conhecia. A garota tão calada de anos atrás tinha se transformado na garota falante, sem medo de expôr sua opinião e sem vergonha da própria voz e das palavras que saiam de sua boca. E não teria porque ser diferente. Uma voz bonita era uma voz que deveria ser ouvida. Saímos dali e caminhamos rua acima, lado a lado, sem nos tocar. Ainda existia muita carga passada em nós que não podia ser deixada de lado como se nada fosse. Existia muito medo do que poderia existir no outro. Ela falava a maior parte do tempo enquanto eu apenas ouvia, eu tentava, tinha um milhão de palavras e frases em minha cabeça, mas nenhuma delas queria sair, e eu não sabia se era por estar anestesiado pela voz dela que eu tinha ouvido tão pouco em onze anos ou se era por ter medo de falar algo errado para alguém que eu conhecia há tanto tempo mas de quem eu sabia tão pouco. Para minha sorte, ela parecia não se importar de ser a narradora e eu o ouvinte. Demos a volta na quadra e sentamos em um banco na praça, em frente ao antigo cinema. Senti a coxa dela tocando a minha assim que sentamos e aquilo me fez arrepiar, era um toque tão conhecido mas que eu tinha esquecido como era bom, relaxante. Conversamos ali sentados, até esquecermos as horas e a necessidade delas. Um vento passou, e tocou os cabelos ruivos dela, e a pele a mostra dos braços e coxas, e um cheiro que eu conhecia tão bem, entrou em minhas narinas, e no mesmo instante uma infinidade de lembranças passou como um trailer detalhado em minha cabeça. Tive o ímpeto de abraçá-la naquele momento, de aproximar meu rosto e cheirar ela mais de perto, mas sabia que não era o certo, que existia uma espécie de etiqueta de reencontros que não permitia aquilo, ao menos não em um primeiro. Tive que me controlar para não tomar uma atitude incontrolada enquanto a ouvia contar a vida dela e enquanto ela ouvia a minha olhando bem no fundo dos meus olhos com aqueles olhos marcantes cor de avelã. Por fim, as horas tomaram o seu lugar de direito e voltaram a ter seu papel em nossas vidas, e nos vimos levantando do banco, sacudindo a possível poeira da roupa e caminhando de volta para a casa dela. Assim que chegamos em frente ao portão, nos despedimos, dei um beijo leve em seu rosto, e fiquei ali parado, esperando ela entrar em casa para então caminhar em direção a minha, pensando que aquele seria apenas um daqueles típicos reencontros dos filmes de romance barato, necessários apenas para fechar uma história inacabada com um final adequado para não ser bom nem ruim. Mal sabia eu, que aquele era apenas o primeiro dos nossos muitos reencontros que levaram a um final feliz em todos os dias seguintes àquele.

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