Bagagem

Separo as roupas que ainda sobraram no guarda roupa e coloco-as na mala, retiro os livros da prateleira e tento escolher quais deles são essenciais, que não podem ser deixados para trás. Difícil escolha. 
É difícil classificar as coisas assim, por importância, quando tudo parece importante. 
Complicado escolher quais pedaços da vida levar, e mais complicado ainda tentar carregar uma vida toda até aqui, numa pequena mala. 
Mas acho que a graça é justamente essa não? Desapegar do que já não existe mais, do que já foi, do que já se tornou passado mas que custamos a enxergar assim até sermos colocados contra a parede. 
A verdade é que é preciso se reinventar, viver coisas novas, aprender mais, viver melhor a cada dia, sem sombras do passado e sem medo do futuro, afinal, o futuro pode ser tudo o que quisermos, pois somos nós e ninguém mais que o criamos, somos nós que o moldamos a cada dia com nossas atitudes e nossas escolhas, por menores que sejam. 
Por sorte, ainda temos nossa memória intacta, e é nela que guardamos as melhores coisas, aquelas que não podem ser roubadas, deixadas de lado, nem pesadas numa mala, e é ali que cada umas das minhas boas lembranças vai permanecer, é ali que cada uma das pessoas que valem a pena serem lembradas irão ficar, mas é ali também que cada uma das lembranças ruins e das pessoas desnecessárias vão ficar guardadas, para me lembrar diariamente o que eu devo evitar, que caminhos não devo mais seguir.
É necessário fazer essa seleção as vezes, separar as coisas, assim o peso nas costas diminui e ficamos mais leves para seguir adiante, e para cada vez mais longe do que não nos interessa, para cada vez mais perto do que sempre desejamos alcançar.
No fim, descobrimos que a vida não é só isso, não é apenas chegadas e partidas, mas o caminho todo, com todas as subidas e descidas, e principalmente todas as coisas que vivemos enquanto percorremos esse longo caminho, que nos causam um enorme prazer, e nos tiram um sorriso do rosto ao serem lembradas em um dia cinzento de tédio, ou momentos antes de fechar os olhos pela última vez, felizes por saber que existem mais coisas para lembrar do que para esquecer.

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