Fantasma dos meus dias.
Lembro de ficar olhando para a tela do celular por um longo tempo, assimilando as palavras que meu irmão havia me escrito. Lembro também de não sentir nada, e essa falta de sentimento foi pior do que sentir qualquer coisa.
Tentei puxar na memória alguma lembrança boa em relação a ele, e poucas foram as que surgiram, já apagadas em grande parte pelo tempo, meros vultos de alguém que eu nem fazia idéia de qual fisionomia possuía agora, de que vida levava, que sonhos tinha, se me listava em seus arrependimentos segundos antes de fechar os olhos pela última vez. Nesse momento senti uma mão em meu ombro, me perguntando o que havia acontecido, e tudo que eu consegui fazer foi mostrar a tela do celular e sentir as lágrimas escorrerem pelo meu rosto de forma incontrolável. Eu não queria chorar, por mais que eu tivesse esse direito, eu não queria exercê-lo. Sempre vi as pessoas perdendo seus parentes de sangue mais próximos e sempre imaginei como seria quando isso acontecesse comigo, e era terrível estar ali e saber que o único sentimento que eu possuía era raiva. Nada de saudade eterna. Apenas raiva. Por não poder dizer tudo que eu sempre tive vontade, por não ter tido o direito de saber o que a vida o havia tornado, por tudo que tinha feito e principalmente por ter me tirado esse direito de sentir qualquer coisa que fosse, qualquer coisa além de raiva, uma raiva que ficaria reprimida em mim até o meu último sopro de ar. É estranho perder alguém ausente que deveria ser tão próximo. É estranho receber uma notícia dessas e minutos depois o dia parecer igual. É estranho ter chorado mais e sentido mais dor quando rompi o tendão do que quando perdi o meu pai para sempre e junto com ele qualquer chance de me livrar desses sentimentos dentro de mim. E o pior de tudo é me sentir mal por me sentir assim. Saber que mesmo depois de tudo ele ainda é capaz de mexer com a minha vida de alguma forma, mesmo que de longe.
No fim, tudo que eu gostaria era de sentir algo além desse vazio, desse sentimento nulo e inexistente, mas é difícil sentir saudades ou tristeza por alguém que nunca esteve realmente presente, que nunca passou de um nome no cartório e um fantasma no dia a dia.
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